Sobre a Rádio Nikosia


Fonte: foto retirada do site da rádio Nikosia


É muito difícil começar a escrever sobre o outro Europeu, por dois motivos: as comparações são inevitáveis (e, por isso mesmo, precisam ser cuidadosas) e porque requer uma análise história e sociopolíticos para que não caiamos em binarismo simplistas como: aqui é melhor que no Brasil ou vice-versa. Tento fazer um exercício de deslocamento importante nesse contexto, mas sem deixar de olhar para as minhas raízes e para a história do meu povo. 

É certo que há um abismo sócio-econômico que separam os dois países (claro, entendendo que há milhares de diferenças locorregionais que tornam a discussão ainda mais complexa). Mesmo a Espanha com dificuldades socioeconômicas visíveis (pela quantidade de pessoas em situação de rua, pendido dinheiro e etc) há menos disparidade. E ainda há um Estado de Bem-Estar social que provê garantias mínimas. As diferenças se explicitam em termos de miséria e desfacelamento da seguridade social e das políticas públicas, em tempos que temos vivido a reforma trabalhista e a reforma da providências (e logo digo como isso tem efeito nos trabalhadores que passam a não poderem mais trabalhar em decorrência de adoecimento psíquico) em pelo governo de Bolsonaro.

Nesses últimos quatro dias estive conhecendo as atividades da Rádio Nikosia, projeto  autogestionário, afetivo e democrático na desconstrução de estigmas em relação às pessoas em sofrimento psíquico e à loucura.

Na definição por eles mesmos, traduzida por mim:

Nikosia é um dispositivo, um coletivo e uma associação formada por pessoas com e sem itinerários medicalizados de sofrimento: há artistas, economistas, filósofos, escritoras, poetas, nutricionistas, psicólogos, educadores, antropólogos e um grande etcetera. 
Desse lugar se reivindica como um espaço social em que a luta evita as exclusões identitárias forçadas para abrir a um pluralidade necessária em todo o encontro que se tente abordar por completo. Nikosia é cotidianamente e sobre um território político, uma assembleia, uma seria de espaços e instâncias de cuidados comuns e acompanhamento: oficinas realizadas em centros culturais, programas e intervenções radiofônicas, literárias e audiovisuais, acadêmicas e etc. Em geral, nada mais e nada menos que situações de encontro e construção de contrapartida planejadas a partir de uma pré-disposição sensível ao intersubjetivo do outro

Há uma aposta em sustentar um coletivo que preserve sua dimensão singular. Espaços em que caibam a diferença e a heterogeneidade. 

Fui acolhida por Lúcia e Martin: dois argentinos que vivem há muito tempo em Barcelona e trabalham no projeto. Fui apresentada ao grupo logo no dia da assembleia, como estagiária o que me pareceu lindo, pois fui colocada em uma posição, deste modo, de quem está para viver-aprender-e-contribuir com o cotidiano do grupo. Assembleia é um dos dispositivos mais importantes dentro dos espaços coletivos, desde que se tente, de fato, valer a voz de todos, mesmo que não haja consenso: espaço em que todos possam caber (não desde um ponto de vista fantasioso da harmonia, mas que  se possa ter a oportunidade de estar).

Me lembrei das orientações que dou aos meus alunos quando começam seus estágios nos serviços de saúde mental: 
Conheçam os espaços e as atividades: entenda se ali assembleia ativa e se há atividades fora dos muros do CAPS: se sim, tentem se inserir nelas. 
Parto da ideia, com essas orientações que a desmanicomialização se dá no dia a dia e no cotidiano da vida em sociedade. Aprende-se mais na rua que nos grupos fechados, muito embora os alunos comecem seus estágios pedindo aulas e textos de psicopatologia, como se a verdade do sujeito estivesse traduzida em livros. Nós, psicólogos, e nosso desejo de saber-poder sobre o outro….

Práticas de cuidado antimanicomiais partem do estar com o outro a partir do que José Leal Rubio, em sua aula de Saúde Mental, chamou de “olhar com a alma”, como algo que não se vê só com os olhos e nem se explica só com os livros. Vejam. Não se trata aqui de dizer que temos que construir nesse olhar uma estratégia de benevolência e que não se faz necessário o saber estruturado que a academia nos dá. Parte-se de uma estratégia clínico-política (percebam que não há cisão entre esses dois termos) no cotidiano, permeada pelos afetos e pela certeza ética de que toda vida vale a pena.

Pois bem. Sigamos.

Por que fiz toda essa conexão: quando você chega na assembleia na Nikosia você não sabe quem é técnico ou quem é usuário e isso não importa: aqui o olhar para o outro não se baliza pelo diagnóstico. 
Bem, é certo que me chama a atenção o fato das pessoas estarem todas bem vestidas e isso tem relação, claro, com uma dimensão de autocuidado, mas tem relação também com com algumas garantidas do Estado de Direito.

Aqui há fundos de pensões por “discapacidad” algo próximo do que chamamos de pensão por invalidez. Há graus para valorar a incapacidade, não sei se é o melhor termo, e essa diferença muda o valor de pensão a se receber.
Pelo que pude ler - e tem chances deu estar errada nisso, confirmo se for diferente assim que puder - há um teto de quase 400 euros se a incapacidade for acima de 65% e que pode somar um valor de 50% a mais para garantir fomento ao cuidador.
Somam-se quase 600 euros, que significa, em termos de moeda brasileira, 3 mil reais. Não é muito para a realidade em Barcelona, é verdade.  

Retirei essas informações daqui: 
http://web.gencat.cat/es/tramits/tramits-temes/Pensio-no-contributiva-per-invalidesa-00002

No Brasil, de acordo os parâmetros aprovados na última reforma da previdência (Gestão Bolsonaro) temos um cálculo para quem contribuiu com a previdência que chega a aproximadamente 60% da média de contribuições ao longo da vida. Vejamos: para quem tem uma média de 2.600 reais (que é alta para os padrões brasileiros), receberá somente 1.560,00 de aposentadoria. Isso por que na atual previdência, considera-se uma média de todos os salários recebidos para fazer o cálculo. Na anterior, 80% dos maiores salários.

Para quem não teve um mínimo de contribuição durante sua vida (e sabemos das precariedades, das exclusões e da dificuldade de acesso ao trabalho em relação às pessoas com adoecimento psíquico), recebe-se o LOAS, com o valor de um salário mínimo por mês, que mal dá para pagar aluguel com um mínimo de dignidade e se alimentar bem.
É necessário dizer que há alguns diagnósticos que permitem o recebimento desse direito social, após uma perícia médica no INSS. 

Há uma realidade material que possibilita alguns trânsitos e deslocamentos das pessoas da Nikosia na cidades e isso me parece fundamental para a desconstrução dos estigmas. Aqui todas as oficinas são feitas nos centros cívicos e espaços na cidade. 
As oficinas, com grande diversidade de temas (e depois conto da minha experiência nas oficinas de pintura e yoga), são abertas: pessoas com ou sem diagnóstico: e esse aspecto também se mostra essencial ao que chamamos de “reabilitação psicossocial”: desmanicomializa-se, assim, o campo social e as estruturas de poder manicomiais.



Aqui temos duas imagens do Centro Cívico de San Augustí onde funcionava um convento. 
Algumas das oficinas da Rádio Nikosia são realizadas aqui. 


Isso me lembra muito os CECCOs (Centros de Covinvência e Cooperativa) em São Paulo (Equipamentos criados na gestão da Erundina e que tem por objetivo ser um dispositivo fundamental da reforma) ou os CUCAs, em Fortaleza, como me apresentou meu querido colega e co-orientador Ricardo Mello.
   
Neste dia de assembleia ps participantes da Nikosia estavam discutindo um documento municipal que está em construção para acompanhamento das pessoas que tem alguma “dicapacitat” se é que entendi bem. Estavam todos muito engajados tentando compreender o teor do documento e as lacunas existentes nele.

Uma segunda discussão que permeou a discussão foram os próximos temas que serão expostos na rádio Nikosia.

Nesta mesma semana decidiram que iriam falar sobre a dívida externa dos países (!) e os efeitos disso na vida das pessoas. 
Absolutamente fantástico e surpreendente ouvir essa discussão, pois estavam todos muito atentos ao tema e três pessoas com muita articulação teórica para manejar a discussão. Entre eles, um senhor grego que  tinha muitos elementos teóricos sobre economia e política na Europa e uma senhora que havia lançado um livro sobre o tema. 
Limito-me a dizer que somente aprendi com eles. Há compreensões sistêmicas feitas por eles entre capitalismo, geopolítica e saúde mental: ao fim da discussão entende-se que esse modo econômico que estamos vivendo produz efeitos em nossas vidas: de endividamento material e também subjetivo, “pois é por conta desse sistema que muitos de nós estamos adoecidos” na palavra de uma das frequentadoras.

Fiquei absolutamente entusiasmada.

Na quarta, quando fui à rádio, cabe sinalizar que as pessoas que tinham maior manejo com a discussão estavam presentes na mesa. Mas havia sempre cadeiras vazias ao redor da mesa da transmissão para quem quisesse sentar e falar. Espaço absolutamente aberto para qualquer pessoa que queira.
Muito entravam na sala, ouviam um pouco e saiam. Alguns participaram. Um jovem rapaz que milita na causa vegana entrou para debater a queimada para produção de pastos e a importância de uma ética de cuidado com a vida animal para que possamos pensar em reflorestamento e outros modos de viver que não privilegiem o consumo, incluindo o consumo animal.
Aqui algumas fotos minhas do dia na rádio:







Conforme relatou Martin que é doutor em antropologia da saúde e co-fundandor da Rádio Nikosia, traduzido por mim:

Estruturalmente Nikosia é uma rádio dentro de outra. É uma emissora que se articula com um programa único e unitário, que transmite ao vivo, todas as quartas, das 16h as 18h, através da sintonia da Rádio Contrabanda (91,4 FM) desde fevereiro de 2003. E contra ao que se pode pensar o senso comum, os programas não se esgueiram ao debande, ou ao descontrole ou ao sem sentido. Não há uma forma obsessiva, nem paranóica, no, pelo contrário:  o que se emite é o resultado de um fazer que tem a ver com um tipo de lucidez guardada, com gagueira, balanço ou timidez, pro sobretudo com um particular maneira de andar resolvendo o mundo. É a voz da loucura desde ela mesma, mas e deixando para traz todo mediador institucional, ou científico ou familiar. Se para a psiquiatria os redatores da rádio entram nos parâmetros do que se define como esquizofrenia, para Nikosia e os ouvintes, são pessoas em primeira pessoa, subjetividades brigando com um rol no social, um espaço desde onde dizer é tanto que dizer desde que se caiu o diagnóstico como sentença de crime não cometido. O objetivo primeiro é lutar contra o estigma que socialmente cobre a ideia de loucura e Nikosia fala disso, desde a subjetividade mais pura: a desentendida

Fonte: http://revistainterrogant.org/la-voz-la-cura-la-locura/

Aqui você também pode encontrar a tese de doutorado do Martin Correa-Urquiza, intitulada: 

Radio nikosia: la rebelión de los saberes profanos (otras prácticas, otros territorios para la locura)

Isso é um pouco dos sentimentos que tentei traduzir em palavras, mas há sensações que não consigo descrever. Transborda em potência e na certeza que precisamos investir em práticas de liberdade como imperativo ético.

Para quem quiser ouvir os programas da rádio:

A dívida insustentável:

E para quem quiser conhecer mais sobre esse projeto incrível:


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