Curso em Saúde Mental Coletiva com psicanalista José Leal Rubio
A convite da professora Mercedes Serrano, pude comparecer à duas aulas de um curso de Especialização em Saúde Mental Coletiva do Dr. José Leal Rubio. Psicanalista e parte que faz parte da Reforma Psiquiátrica na Catalunha.
Aqui, deixo com vocês minhas anotações sobre a aula, com referências passadas pelo professor, a quem interessar.
- Dias 10 e 11 de janeiro de 2020
A discussão se inicia com a proposital colocação da palavra comunitária no nome do curso “Saúde Mental Coletiva”, como uma possibilidade de pensar SM para além de sua ainda prática ambulatorial. Trata-se de uma mudança paradigmática que precisa pensar o campo relacional e comunitário como centro da atuação em SM.
(E nisso, creio eu, estamos mais avançados em termos de concepção de políticas públicas). Citei o exemplo da Estratégia de Saúde da Família e a figura do profissional ACS e o impacto positivo nos indicadores de saúde. Eles ficaram maravilhados com essa possibilidade que não há aqui.
Aqui, assim como em São Paulo, os serviços de saúde mental são gerenciados por instituições privadas. No caso, trata-se de uma instituição ligada a umas monjas. Não entendi o nome ao certo, por que eles falam espanhol e catalão em uma mesma frase.
José Leal também faz críticas a perspectiva totalitária da definição de saúde pela OMS: “um total bem estar biopsicossocial”. Faz críticas em duas perspectivas: a primeira por meio de uma visão psicanalítica (não há completude, temos que nos haver com a falta. Só há completude por meio de uma dimensão narcísica).
Nesse sentido, a outra perspectiva é que bem-estar é um estado de espírito, algo subjetivo.
José Leal também fez críticas aos termos: “Psicoeducativo”, “grupos terapêuticos”, aderência ao tratamento” e ao que eles chamam de grupos de “consciência da doença”.
Essas críticas partiram de uma questão que colocaram os trabalhadores dos serviços: não há valor nenhum grupo nos serviços que não sejam denominados terapêuticos. E que os grupos psicoeducativos seguem a mesma questão: grupos abertos que pensem outros aspectos que não sejam alocados no campo da saúde-doença não fossem fidedignos, assim, coloca-se o “psico”junto do “educativo” para lhes conferir maior valor.
Parte-se de uma estratégia de poder que ainda centraliza o cuidado no campo biomédico, afastando, assim da perspectiva comunitária (onde a vida se faz no território): construir com o outro e não sobre o outro.
Sugeriu a leitura do artigo : etica de la ignorancia, escrito por ele:
José, que tem trabalhado muito com supervisão institucional, tem percebido que os problemas em relação às práticas profissionais se aportam mais na dimensão ética que técnica.
Retoma a relação dos determinantes sociais em saúde como fundamentais para pensar o retorno ao que chamamos comunitário.
Crítica o termo empoderamento: não há como empedrar ninguém sem reconhecer o poder do e no outro.
Fala de uma necessidade dos trabalhadores estarem com o olhar atento. Essa é uma função da alma e não dos olhos. Só da para trabalhar por meio da ternura se a introjetamos enquanto dimensão ética do nosso trabalho. TRATO É MELHOR Q UE TRATAMENTO.
Sugeriu o livro: Estrangeiros como nós mesmos, J. Kristeva
E “A hospitalidade” do Derrida. (Lembre de você, Iara).
E o artigo “CELEBRACIÓN DE LA DIFERENCIA Y ELOGIO DEL DESARRAIGO Y LA ACOGIDA
Identidades, migraciones, salud mental y derechos humanos”
(Penso que pode ser bom pra você, Marta)
No segundo dia do curso ele se ateve a falar um pouco mais sobre grupos, a partir de Pichón.
Começa fazendo críticas à psicanálise ortodoxa e afirma: teoria é conhecimento para trabalhar, não para adorar.
Função do conhecimento é para fazer transformar. Por isso, temos que trabalhar com base em alguns conhecimento, sem medo.
Para ele, antes de iniciar qualquer processo grupal, há que se fazer algumas perguntas:
- O que acontecerá aqui?
- Como será essa experiência?
- Quem são as pessoas que estão no grupo? (Importância de incorporar as diferentes subjetividades. Nesse sentido diz que o sujeito não pode estar diluído no grupo)
- Como são?
- Qual a minha posição entre os demais?
Não se pode confundir indivíduo com individualismo.
Sugestão de livro: Identidades asesinas.
As respostas a essas perguntas vão nos ajudar a pensar como será o grupo.
Nem sempre a horizontalidade vai se estabelecer (há muitas dimensões que afetam essa possibilidade de dinâmica horizontal: não há como por a horizontalidade em um plano idealizado).
Mas há como ter reciprocidade e complementariedade (que só se dá a partir da diferença).
Assim, toda experiência grupal é uma experiência de aprendizagem e por isso é transformador.
Tudo que produz intercambio com o outro é transformador.
Quando há incompletude, há falta e o encontro com o outro pode minimizar esse efeitos a partir de experiências de reciprocidade. Assim, toda relação com o outro implica renúncia: hay que pensar como produzir complementariedade.
Realização de tarefa é um produto do grupo. Não pensar produto como produção de algo do ponto de vista do acúmulo do capital. Mas como possibilidade de criação. Como algo que se cria no grupo que não é estático e que se segue criando.
Muitos grupos que não tem tarefa se acabam. Não há grupo sem tarefas.
Grupo é um espaço de encontro com o outro em que se permite a construção de comuns. O que transforma é o cotidiano ( o que se sabe sobre sua própria vida no cotidiano) e não grandes interpretações no divã.
José também faz críticas ao que chamamos de “linguagem comum”. Trata-se também de um termo totalitário. É impossível uma linguagem comum, mas há uma linguagem suficientemente compartilhadas. É preciso caber as diferenças.
Do mesmo modo, nem todas as identidades podem ser compartilhadas. Mas há uma ética do respeito.
Há um gráfico sobre processo de grupo que explica 4 principais eixos para constituição de um grupo:
Afiliação: as diferentes identidades
Pertencimento: aumenta a identificação e se constitui pela possibilidade da diferença
Colaboração: a partir da tarefa
Pertinência: Maior grau de compromisso e consenso. Definição da tarefa.
Por fim, ele traz uma discussão muito interessante sobre a noção de verticalidade e horizontalidade nos grupos: não há uma só verticalidade. Há algumas verticalizações que produzem efeitos no grupo e que tem relação com estruturas de poder (leitura minha). Ademais, não podemos idealizar o plano horizontal. Ele se faz no aqui e agora dos grupos. É sempre dinâmico.


Camila.
ResponderExcluirQue bom , você continua focada em saúde mental .
Parabéns.
Que gostoso ler essas reflexões. Me remeteu alguns estudos para as aulas ano passado em temas em Psicologia Social.
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